Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Ante-estreia (7) - João Lencastre

 

Mais uma ante-estreia em O Sítio do Jazz.  Curiosamente, a escolha de hoje é reincidente nesta rubrica, já que o seu primeiro disco como líder, editado também pela independente espanhola Fresh Sound New Talent, foi aqui abordado há um ano e tal, antes do seu lançamento nas lojas.  É o que pode acontecer, aliás, a qualquer disco, português ou estrangeiro, que se ache por bem seja enviado a O Sítio do Jazz.  O que não implica, está bem de ver, qualquer compromisso automático ou obrigatório quanto à sua análise.

Ora o álbum a que hoje me reporto, intitulado B–Sides, foi gravado pelo grupo Communion do baterista João Lencastre e parece-me constituir um novo passo  (e não pequeno), na afirmação como instrumentista e como líder deste interessante músico de jazz português.  Mantendo apenas nesta nova formação a presença de Phil Grenadier e incluindo, nalgumas faixas, o excepcional David Binney  – parceiro conjuntural de Lencastre em actuações ao vivo –  ao qual se somam Leo Genovese, Thomas Morgan e Jeremy Udden em faixas alternativas às de Binney, João Lencastre reuniu um repertório escolhido, bem articulado e ainda melhor alinhado, assim alcançando a meu ver resultados artísticos mais consistentes do que a anterior  (e positiva)  experiência discográfica já aqui analisada:  One!

Começando, já agora, pelo conjunto de músicos que para esta aventura se juntaram a Lencastre, em 29.01.07, num estúdio nova-iorquino de Brooklyn, salta à vista a ausência de um fabuloso pianista como é Bill Carrothers  (presente no já referido One!)  Mas não estou certo de que isto constitua uma trágica desvantagem.  Pelo contrário, sou até capaz de considerar que o grupo de João Lencastre agregou aqui, em consistência e em homogeneidade, a qualidade média-alta ou mesmo alta de todos os protagonistas, que os persistentes rasgos individuais de Carrothers porventura haviam “roubado” no outro contexto, pelo “desiquilíbrio” que a sua natural e incontrolável transcendência provocava, precisamente no mesmo sentido em que, por exemplo, um actor às vezes “rouba o papel” a outro ou outros dos seus companheiros de palco ou de plateau.

E o facto é que, através de uma participação tão inteligente quanto bem inserida no colectivo, a presença do argentino Leo Genovese  – valor crescente no amplo conjunto de pianistas criativos que hoje vão aparecendo, batendo-se taco-a-taco com um Edward Simon e já quase a par desse excepcional Luis Perdomo, para apenas referir dois outros talentosos latinos da cena nova-iorquina –  não representa de forma alguma qualquer “desvantagem”.  Ouçam-se, a título de exemplo, o seu templado solo para Water  (original da sua autoria)  ou a movimentada e livre deambulação (sempre estruturada) da improvisação em Fiasco  (Paul Motian)  e compreender-se-á o que quero dizer.

Algo de certo modo semelhante acontece, mas de um outro ponto de vista, com a prestigiada presença de David Binney, cujo recato da integração interactiva na estratégia de grupo não chama a si, como poderia arriscar-se a acontecer, exageradas  (embora naturais e inevitáveis)  atenções.  E mesmo a sua imparável improvisação em 3 Estados  (Lencastre), excepcional pelo “afastamento” do modelo temático inicial e pelo desvario e invenção das suas longas frases, não extravasa as potencialidades de um aliciante tema de recorte shortereano, que já havia ganho asas, momentos antes, na crescente complexidade do contributo solístico de Genovese.

Quanto ao trompetista Phil Grenadier  – que sempre parece mostrar-se... "despreocupado" com certas falhas de embocadura, nele frequentes, antes delas tirando partido para pular para outros caminhos, como bem ensinam os grandes mestres –  soa-me, mesmo assim, bem mais seguro do que já lhe ouvi noutros contextos, batendo-se ombro a ombro com Binney no vigoroso diálogo a cappella e em rubato de Fiasco ou demonstrando enorme segurança, por exemplo na improvisação para Chatarra  (Genovese).

Thomas Morgan, no contrabaixo, para além da consistência de um tempo a toda a prova, tem aquela qualidade de som  (um “som humano”)  capaz de resistir ao tipo de captação-que-nunca-falha e infelizmente está na moda (ou seja, por linha), fazendo antes soar mais a nobreza da madeira e menos os detalhes da técnica.  Não tendo grande espaço para se fazer ouvir mas contribuindo sobretudo para as atmosferas do tutti  (sendo este disco também cativante pelos vários ambientes que são criados,) Jeremy Udden dá boa nota de si, por exemplo, no dialogo pastoso e escorregadio com o trompete de Grenadier no já referido Water.  

Esta homogeneidade dos contributos individuais adequa-se perfeitamente a várias das peças que nos são propostas, com especial relevo para esse intrigante original de Paul Motian que dá pelo nome de Fiasco, para a tranquila beleza de Pete Best  (Steve Swallow), para os ambientes diferenciados  (electrónico e acústico)  das duas versões de Spacy Atmosphere  (ambas de “concepção colectiva”) e para a configuração sinuosa e exigente de 3 Estados ou Chatarra.

Finalmente, fica ainda o justo destaque para a maior segurança expressiva, sentido de oportunidade no uso das “malhas” e melhor controlo do tempo por parte de João Lencastre, atributos bem mais importantes  (por assim dizer)  do que o já conhecido destemor técnico do jovem baterista, isto sem esquecer o “descaramento” da sua capacidade de liderança.  É que, bem vistas as coisas, este B–Sides é mais um exemplo de um disco gravado em Nova Iorque sob a responsabilidade de um músico de jazz português!  Coisa impensável, convém recordar, ainda há poucos anos! 

_________________________

 

B-Sides

(Fresh Sound New Talent / Mbari)

João Lencastre "Communion"

Phil Grenadier (trompete), David Binney (sax-alto), Leo Genovese (piano, Fender Rhodes, Blue Baby), Thomas Morgan (contrabaixo), Jeremy Hudden (sax-soprano, alto), João Lencastre (bateria)


 
 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 09:39
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